PÉ-D'ÁGUA
Caminhar sem guarda-chuva por dias chuvosos me coloca num estado de reflexão.
Sentir o gelado das gotas tocando minha pele por um instante me leva ao sentimento quente da infância; quando saía de casa com minha mãe em dias similares a esse e ela, em um ato zeloso e afetuoso de proteção, tentava me manter seco embaixo da sua generosa sombrinha.
Nuvens escuras remetem a noites frias em que eu me deitava no sofá da nossa casa e assistia por horas as minhas animações favoritas enrolado num cobertor; torcendo inocente para que a hora de dormir nunca chegasse.
O quão rápido o tempo passa? Por que demoramos tanto para notar que esse mesmo tempo, egoísta e voraz, leva consigo cada um desses instantes minimamente marcantes, e nos deixa apenas o sofrido lembrar desses momentos simples que nunca mais teremos a oportunidade de vivenciar de novo?
Hoje em dia aproveito da melhor maneira possível essas oportunidades aonde vivo minha solitude em dias chuvosos. Saudosamente lembro de minha mãe, que em algum instante me viu homem e me deixou partir sozinho; da hora de dormir que, em algum momento e sem que eu percebesse, chegou e me carregou até a cama; e por fim, da calorosa infância que, assim como o temporal, uma hora acabou.
Não comprarei um guarda-chuva novo. Mas aguardarei – com certa vontade de se molhar – a próxima chuva que virá.
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