Rafael, O Homem de Duas Almas.

    Eram 8 horas da manhã de uma segunda-feira, e o dia de Rafael já estava um caos completo. Recebeu momentos antes, em seu celular, uma ligação do hospital, que o informara que sua alma havia falecido. Também foi informado que os médicos, esperançosos, fizeram o possível para tentar reanimá-la. Mas dessa vez, depois de tantas outras, não havia mais o que ser feito. Não houve esperança o suficiente que pudesse salvar a condenada alma de seu trágico destino.

    O sofá da sala de estar da casa de Rafael está localizado de frente para a porta que dá acesso à varanda e ele se encontrava ali, sentado. Com o braço debruçado sobre o braço esquerdo do sofá, fumando. Ainda incrédulo com a notícia, contemplava o céu nublado daquela manhã quando se deu conta de que precisava organizar o funeral. Decidiu, ainda naquele instante, que o velório e o enterro seriam na noite daquele mesmo dia, e a falecida (sua) alma usaria um terno vermelho-carmesim; para simbolizar todas as vezes em que ela sangrou por cortes profundos e, ainda assim, resistiu bravamente.

    A notícia chegou primeiramente à sua mãe, que chorou e perguntou como ele pôde deixar sua alma morrer tão  jovem e o que faria de sua vida agora. E naquele momento, Rafael não conseguia responder ou sequer imaginar o que poderia ser dito para aliviar o coração entristecido de sua mãe — uma vez que ele também não sentia nada além de sua solidão. Por fim, notificou um a um dos que se importavam; e desses recebeu as mais diversas reações: compaixão, pena, raiva, remorso. E embora quisesse expressar o quanto sentia muito, ainda não seria o suficiente. Ainda não traria o que outrora foi tão importante.

    Por amor, todos compareceram ao velório. Mas por obrigação do fardo de possuir, somente ele foi o responsável pelo enterro. Carregou sozinho em suas costas o peso do caixão com uma cruz esculpida na tampa e rezou para que Jesus tivesse misericórdia dele, um mero pecador. Cavou sete palmos abaixo do chão e torceu para que do céu caíssem lágrimas, já que de seus olhos poucas gotas d'água restavam. Mas nada aconteceu.

    Ao lançar a última pá de terra, Rafael deitou-se sobre o túmulo. Precisou vivenciar todo aquele terrível dia para realizar que não havia mais o que ou a quem acalentar, ouvir, sentir, rezar ou chorar. Talvez nem a si. Naquele dia, sua alma morreu. Mas, ainda sentindo a dor do imensurável luto em seu coração, percebeu que, independentemente da angústia que sentia ao pensar no incerto futuro que viria, só lhe restava uma sinuosa e complexa decisão: deixar uma próxima alma nascer.

    Ainda havia alguma esperança, no fim das contas.




Comentários