(DELÍ)RIOS.

    No fatídico dia em que carreguei minha chave na bolsa, terminei o dia frustrado por não conseguir voltar para a casa que eu chamava de minha.
    Lágrimas poderiam fazer métrica exata aos passos que dava enquanto andava sem rumo algum – já que nesse instante, me tornei cego. Mas nenhuma visão embargada poderia cegar-me de ver a parede mais a frente, no outro lado da rua, me informando formalmente que Jesus me amava. Naquele momento, fiquei intrigado: desde quando eu existo? Pensei que Jesus só poderia amar os que existem. Não tenho certeza que Jesus me ame, mas tenho certeza absoluta que não existo. Tal qual o amor incondicional também não.
    Quando soube naquele instante que Jesus me amava, adorei mentalmente o diabo; só pelo sarcasmo de imaginar que talvez Ele estivesse olhando. Logo em seguida, praguejei meus pensamentos e me repreendi; não pela blasfêmia – mas pelo fato que eu estava sendo o garoto mau que diziam todo o tempo que eu era e querendo afastar, supostamente, o único que parecia querer estar, supostamente, próximo da minha constrangedora não-existência; afinal, ninguém quer estar sozinho. Mas lá estava eu: distante de tudo, de todos e de mim.
    Enquanto eu me perdia num inteligível martírio, a avenida Amazonas tornou-se rio salgado – fazendo com que eu não conseguisse mais andar em meu pranto. E para fugir de um trágico afogamento, boiei em meu sofrimento para deixar que o fluxo da corrente me guiasse até o local que eu deveria estar.
    Então meus olhos se voltaram para o céu – estava nublado; mas era possível ver algumas estrelas dentre as muitas nuvens que cobriam o universo. Lembrei-me, então, do céu nebuloso no dia o qual Bernardo, meu irmão, morreu. Naquele dia, pela dor do amor fraterno, chorei um rio similar ao que me leva agora.
    Eu tinha 8 anos e aquele rio me desaguou no mar da vida que tinha pela frente. Desse rio, surgiu-se minha primeira saudade; desse mar, minhas diversas promessas não cumpridas. E isso me fez refletir sobre as consequências de todo o meu talvez. Talvez o agora seja consequência de cada uma dessas palavras vazias ditas pela minha boca mentirosa, e arremessadas ao vento para que não pudessem ter volta. Talvez o agora seja culpa do egoísmo dos meus olhos, ao tentar roubar para si toda a beleza do mundo. Talvez era algo predestinado – escrito na linha do tempo antes mesmo do primeiro respirar de meus pulmões. E em todas as infinitas possibilidades, provavelmente eu ainda estaria aqui: vociferando quem fui e serei até o instante em que, novamente, deixarei de ser.
    Perseguindo com o olhar as poucas constelações desse mesmo céu nuvioso, não notei que meu rio de lágrimas seguia num fluxo contrário – consequentemente, desaguei em nascente. E, nesse momento, notei que as águas de meu rio se misturavam, como um paradoxo temporal.
    Havia uma criança chorando para formar o outro rio. A criança era eu. Mas, diferentemente daquela primeira vez em que formei um rio, pude ver Deus em minhas costas. Só aí pude perceber que ainda há tempo. Tempo de ver as nuvens se dissiparem para o sol nascer. Tempo de amar; tempo para contemplar o rio desaguar e tornar-se mar; tempo de ver as promessas feitas se realizarem – pois ainda há vida para ser escrita até o momento que se esvair dos meus pulmões o ar do meu último respirar. O rio, então, voltou a seguir seu fluxo normal. Minha criança me abraçou e antes que eu pudesse retribuir o abraço, desapareceu. Pude assim finalmente deitar-me novamente em meu pranto, deixando o sentimento fluir, mas agora com o alívio de não haver mais dúvidas: ansiar sempre será o trágico destino dos que escolhem viver. E ainda assim, vale a pena ansiar pela beleza de toda a vida que virá. Esse é o presente que confirma o amor de Jesus enquanto antítese ao ódio contra meu próprio ser e, para além disso, a confirmação do cuidado de Deus ao tentar reconfortar a dor em meu peito – pois sentir dor é um fardo para os que existem.
    É quase um delírio dizer que entraremos num mesmo rio; pois as águas que nele confluem já não são mais as mesmas – e nós também não.
    Eu existo, afinal. Tal qual o amor incondicional também.



Comentários

  1. "eu existo, afinal" (!!!!!)

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  2. Arrasou!! Orgulho de você, talentoso desde sempre. Vai longe amigo ❤️

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